Tenho uma teoria sobre a VIDA: o importante é a prática.

A teoria! Aquele néctar divino. Aquele bálsamo para a alma sedenta de conhecimento!
Lembro-me, como se fosse ontem, das horas a fio a devorar volumes poeirentos, a sublinhar frases de efeito com canetas de mil cores, a sentir o cheiro adocicado do papel envelhecido e a promessa de uma sabedoria que, confesso, me fazia sonhar em levitar acima dos meros mortais. A teoria é como aquele bolo de chocolate na vitrine: lindo, perfeito, com uma cobertura brilhante que nos faz salivar. Mas, e vamos ser honestos... quem é que se alimenta só de olhar para o bolo?
Eu, que já passei dos cinquenta e carrego nas costas mais histórias que rugas (e olhem que não são poucas!), aprendi, à custa de calos e algumas nódoas negras na alma, que a vida, essa senhora de carnes rijas e pouca paciência, tem um humor muito peculiar. Ela adora atirar-nos para o meio da pista de dança, mesmo que só tenhamos lido o manual de “Como Dançar o Tango Perfeito em 10 Lições”. E é aí que a melodia da teoria, por vezes, desafina, e o ritmo da prática nos arrasta, quer queiramos, quer não, para um passo de dança que não estava no script.
Quantas vezes não nos vimos a braços com um problema que, na teoria, parecia tão simples como somar dois mais dois? O miúdo que não quer comer pescada cozida (nem eu!), o prazo que aperta no trabalho, a torneira que pinga com uma persistência irritante... Na teoria, talvez tivéssemos a resposta pronta, a estratégia infalível, a paciência de um santo. Mas, na prática, o cheiro a peixe cozido espalha-se pela casa como um aviso de guerra, o suor frio escorre pela nuca enquanto o relógio avança impiedoso, e o som constante do “ping, ping, ping” da torneira transforma-se numa tortura chinesa que nos faz querer gritar para o universo: “Onde está a teoria que me prometia a paz interior?!”
É na prática que o sabor amargo da frustração se mistura com o doce da superação. É no toque áspero das mãos que trabalham, no som do riso que ecoa depois de um dia exaustivo, no aroma do café que nos acorda para mais uma batalha, que a vida se revela em toda a sua complexidade e beleza. A teoria é o mapa, sim, um guia valioso, mas o mapa não nos aquece no frio, não nos alimenta na fome, não nos dá o abraço apertado quando precisamos. É a caminhada, com os seus tropeções e as suas vistas deslumbrantes, que nos molda e nos ensina a verdadeira geografia da existência.
Lembro-me de uma vez, a tentar montar um móvel que comprei no Ikea. O manual, um prodígio de clareza teórica, mostrava diagramas perfeitos. Mas a madeira não encaixava, os parafusos teimavam em não apertar, e o suor escorria pelos olhos, misturando-se com a poeira da serra. Depois de horas de luta, de sentir a dor nos dedos e o desespero a subir, lá consegui. O móvel ficou um pouco torto, é certo, mas a sensação de vitória, o cheiro a madeira nova e o orgulho de ter feito, superaram qualquer frustração. A teoria dizia “encaixe A em B”. A prática, essa mestra implacável, sussurrava “usa a força, mulher, e se não der, improvisa!”
Então, da próxima vez que se sentirem perdidos entre páginas e ecrãs, a tentar decifrar o grande enigma da existência, talvez valha a pena lembrar: a vida não é um problema de matemática para ser resolvido apenas com fórmulas. É uma receita de família, que se aprende na cozinha, com as mãos na massa, com o cheiro a especiarias e o calor do forno. É na prática, no fazer, no sentir, no errar e no recomeçar, que a teoria ganha corpo, alma e, acima de tudo, sabor. E, no final, é isso que nos faz sentir vivos. O resto, meus amigos, é apenas uma parte da conversa.
Até à próxima Conexão Criativa!
(Assinado: Uma eterna aprendiz da vida, com os pés bem assentes na prática.)
Lúcia (de bizavó e não de pastorinha)
