O Impulso Imperioso: Um Manifesto pelo Entusiasmo

O entusiasmo é a forma de energia mais subversiva que possuímos. Num mundo adulto e cinzento, que premeia a discrição, o cálculo e a pose de desinteresse, ser entusiasta é um ato de rebeldia quase erótica. É o desejo feito verbo, o ímpeto que nos salva da asfixia da normalidade.
Repara, a sociedade treina-nos para a contenção. Aprendemos a domar a voz, a disfarçar a excitação, a receber uma boa notícia com um comedido “que excelente”, como se um sorriso demasiado largo fosse um faux pas social. Esta é a postura do “cool”, daquele que nada o surpreende e tudo antecipa. É, no fundo, uma pose profundamente aborrecida e, pior que isso, anti-vida.
O entusiasta, pelo contrário, é um transgressor. Ele é aquele que, perante uma chávena de café excecional, não se limita a bebê-la. Ele proclama a sua excelência, fecha os olhos no primeiro gole e sente o prazer de forma tão visceral que quase se torna inconveniente. É esta capacidade de se deixar afetar, de se render ao espanto, que é verdadeiramente radical. É um desejo pelo mundo – desejo de o saborear, de o conhecer, de o devorar nas suas múltiplas facetas.
Há, é claro, quem confunda entusiasmo com ingenuidade. Nada mais falso. O verdadeiro entusiasta não é um ingénuo; é um alquimista. Ele conhece perfeitamente as desilusões, os projetos que falham, os cafés queimados. Mas escolhe, de forma deliberada e inteligente, focar-se na possibilidade vertiginosa do “e se…?”. É uma estratégia de sobrevivência emocional. Enquanto o cínico se encolhe para não ser atingido, o entusiasta avança em campo aberto, sabendo que pode levar um balde de água fria, mas que a hipótese de tocar no céu vale qualquer risco.
E é aqui que reside o seu poder de sedução. O entusiasmo é magneticamente contagioso. É impossível ficarmos indiferentes perante alguém que fala de uma paixão com os olhos a brilhar. Seja de um hobby, de uma ideia, de um lugar ou de uma pessoa, essa energia pura e não filtrada é o afrodisíaco mais potente que existe. Não há marketing pessoal, nem roupa de marca, que se compare ao atrativo brutal de alguém que está verdadeiramente vivo. O entusiasmo é a linguagem universal do desejo de viver, e todos somos, secretamente, seus tradutores ávidos.
No trabalho, esta força é a diferença entre um mero executor e um criador. O entusiasta não pergunta “o que é que tenho de fazer?”; pergunta “como é que podemos fazer isto brilhante?”. Ele infeta os outros com a sua convicção, transforma tarefas em missões e, invariavelmente, acaba por descobrir caminhos que o meramente “profissional” nunca vislumbrou.
Portanto, façamos um pacto. Vamos desaprender a contenção. Vamos permitir-nos o ridículo sublime de nos entusiasmarmos abertamente. Vamos falar do livro que nos mexeu com as mãos, de viajar para um sítio que não conhecemos só pelo prazer do desconhecido, daquele plano que pode falhar, mas que vale a pena tentar.
Porque no fim, a vida não é um relatório de contabilidade emocional onde devemos fechar o saldo a zero. É uma curta, intensa e gloriosamente imprevisível viagem. E a única bagagem de que realmente precisamos é a coragem de a desejar, em toda a sua plenitude.
Sejamos, então, insuportavelmente entusiastas. O mundo, agradecido, há de retribuir o favor.
