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Descomplica & Brilha. Doses de Alegria para o Teu Dia

Descomplica & Brilha – o teu blog de doses alegres para dias com mais cor e menos preocupação. Aqui, a inspiração vem com um sorriso e a vida ganha novos brilhos! ✨

12
Out25

Volta para Cima, Chuva - O Poder do Que Não Podemos Mudar 

LucyHare

Num mundo que frequentemente glorifica a juventude e o novo, surge uma voz que nos recorda a beleza intemporal da sabedoria e da autenticidade. É um paradoxo fascinante, esta dança entre o tempo que avança no corpo e a alma que, por vezes, se recusa a envelhecer. Quem de nós, ao olhar-se ao espelho, não se questionou sobre a estranha desarmonia entre a imagem refletida e a vivacidade interior? Como é possível que, aos meus 50 anos, a minha mente se sinta com a efervescência dos 15, enquanto o corpo já exibe as marcas de uma jornada mais longa?

É precisamente neste ponto de interrogação que a perspetiva de uma mulher de 85 anos, cuja vitalidade e perspicácia desafiam as convenções, repercute profundamente, servindo de guia inspirador para todas as gerações.

Questionada sobre a sua idade, ela responde com uma incredulidade genuína: "Tenho 85 anos, o que não consigo acreditar." Esta frase, por si só, revela uma alma que se recusa a ser definida por números. A sua juventude de espírito é palpável, e talvez o segredo resida nas suas companhias: "Os meus melhores amigos são os meus netos. Estão na casa dos 20 anos. Acho-os as pessoas mais fixes." Esta ligação intergeracional não é apenas um detalhe; é uma filosofia de vida que a mantém conectada ao presente, à inovação e à energia contagiante da nova era.

Quando confrontada com a pergunta sobre o que significa ter 85 anos, a sua resposta é um testemunho da sua recusa em ser categorizada: "Não sei o que é ter 85 anos. Não faço ideia. Danço tango. Faço tudo o que toda a gente faz." Para ela, a idade é um mero conceito, uma construção social que não dita as suas ações ou a sua paixão pela vida. A sua existência é um "gabinete de curiosidades", onde cada dia é uma nova descoberta, um estímulo à exploração e ao interesse genuíno pelo mundo. É esta curiosidade insaciável que a distingue, que a mantém vibrante e em constante movimento, num contraste marcante com tantos outros que se deixam aprisionar pelas expectativas da idade.

Mas é no conselho que daria à sua versão de 25 anos que reside a essência da sua sabedoria, uma mensagem universal que transcende o tempo e as circunstâncias:

"Ouve-te a ti mesma. O que é que eu quero e o que é que eu preciso? Dá-te a ti mesma, porque é a única coisa que realmente tens e podes mudar. Tudo o resto é como a chuva. Se disseres, 'volta para cima, chuva', ela não te vai ouvir. Conhece-te a ti mesma. Tu tens o poder."

Esta é uma celebração poderosa à autodescoberta e à autossuficiência. Num mundo que nos bombardeia com mensagens sobre o que devemos ser, ter ou fazer, a sua voz clama pela introspeção. "Ouve-te a ti mesma" é um chamamento a silenciar o ruído exterior e a sintonizar com a melodia interior dos nossos desejos e necessidades mais profundos. É um lembrete de que a verdadeira felicidade e realização não vêm de fora, mas de uma compreensão íntima do nosso próprio ser.

"Dá-te a ti mesma" é um apelo à ação e ao amor-próprio. Não basta saber o que queremos; é preciso ter a coragem de o procurar, de o construir, de o oferecer a nós próprios. Esta é a única posse inalienável, a única fonte de mudança genuína. A metáfora da chuva é brilhante na sua simplicidade: há coisas na vida que não podemos controlar, por mais que o desejemos.

Tentar mudar o inalterável é uma batalha perdida. A verdadeira força reside em focarmo-nos no que está ao nosso alcance: o nosso interior, as nossas escolhas, a nossa capacidade de nos moldarmos.

Finalmente, "Conhece-te a ti mesma. Tu tens o poder" é a coroação desta filosofia. É um empoderamento, uma declaração de que a chave para uma vida plena não está em procurar validação externa, mas em reconhecer a força inerente que reside em cada um de nós. O autoconhecimento é a fundação sobre a qual construímos a nossa resiliência, a nossa alegria e a nossa capacidade de navegar pelas complexidades da existência.

A sabedoria desta mulher de 85 anos é um presente. É um estímulo a viver com curiosidade, a abraçar a autenticidade e a cultivar uma profunda ligação com o nosso eu interior. Que as suas palavras nos inspirem a dançar o nosso próprio tango, a explorar o nosso próprio gabinete de curiosidades e, acima de tudo, a ouvir e a dar a nós próprios o que realmente precisamos, pois é aí que reside o verdadeiro poder.

11
Out25

A Vida Não É Uma Autoestrada

LucyHare

É Um Labirinto Cheio de Atalhos Maravilhosos

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Escrevo hoje, novamente, meus caros, não do alto de uma montanha de teoria, mas do meio do caminho – com o pó nas botas e uma pedra no sapato que teima em lembrar-me que estou, de facto, a caminhar.

O meu último artigo, onde confessei o meu caso de amor (um pouco complicado) com a teoria, gerou conversas lindíssimas. E uma delas, em especial, fez-me olhar para o mapa da vida de forma diferente. Alguém me sussurrou, com a sabedoria de quem já tentou montar um móvel do Ikea sem chorar: “Há o saber fazer, o saber fazer e o saber fazer.”

E esta frase, aparentemente simples, é como uma chave para uma fechadura que nem sabíamos que existia. Ela não nega a teoria; eleva a prática a uma arte.

Passo a explicar esta trilogia da existência, então!

O Primeiro Saber Fazer: O Manual de Instruções

Este é o saber dos livros,dos cursos, dos conselhos bem-intencionados da minha avó Glória. É saber que, na teoria, para fazer um bolo, se junta a farinha, o açúcar e os ovos. É o mapa. É precioso, sem dúvida. Mas, sozinho, é como tentar sentir o calor do sol lendo um livro sobre o astro-rei. Não chega..

O Segundo Saber Fazer: As Mãos na Massa

Aqui é onde a teoria encontra a realidade e, por vezes, leva um safanão. É quando se parte o ovo e cai uma casca na taça, é quando o forno está mais quente do que devia e o bolo fica com uma cor duvidosa. É o saber que se ganha a fazer, a tropeçar, a limpar a farinha do chão. É o móvel do Ikea que fica um pouco torto, mas fica! Este saber é o que nos tira da plateia e nos põe no palco. E, meu Deus, que diferença!

O Terceiro Saber Fazer: A Magia do “Improviso”

E eis o nível de mestria! Este é o saber que não vem nos livros. É a pitada de canela que se deita no bolo porque sim, porque o coração (e o nariz) assim o dita. É olhar para o móvel torto, pegar num martelo e num pedaço de madeira que sobrou de outro projecto, e inventar um apoio genial que não estava no diagrama. É a intuição, a criatividade, a sabedoria do corpo que já memorizou o movimento. É a vida, no seu estado mais puro e inventivo.

E é aqui, meus ricos amigos, que a nossa conversa sobre os caminhos bloqueados ganha um novo sentido. Porque perante um obstáculo, não se trata apenas de desistir ou insistir. Trata-se de exercitar este terceiro saber.

Perante um desmoronamento na estrada, o praticante do terceiro saber não se senta a chorar pelo mapa rasgado. Ele pega na sua bússola interior – essa que é calibrada pelos seus valores, talentos e paixões – e pergunta: “Qual é o próximo passo, por mais pequeno que seja, que me pode levar na direcção da vista que procuro?”

Isto chama-se a Arte do Desvio Criativo.

É o reposicionamento: querer liderar uma equipa e, não o podendo fazer na empresa, criar um projecto comunitário na sua terra.

É o projecto de garagem: sonhar em ser pasteleiro e começar a vender bolos aos fins-de-feira para amigos e vizinhos.

É a aprendizagem lateral: a porta do emprego dos sonhos está fechada? Aprende-se uma skill nova que permite espreitar pela janela.

Cada um destes desvios não é um desvio. É o caminho a ser refeito, por nós, à nossa medida. É a prática a mostrar-nos que a vida não é uma autoestrada asfaltada que nos leva directos ao destino. É um labirinto cheio de atalhos maravilhosos, de ruas sem saída que nos obrigam a olhar para cima e a ver uma escada, de pontes que só descobrimos porque nos perdemos primeiro.

Por isso, da próxima vez que o caminho à vossa frente parecer bloqueado, lembrem-se: não é o fim da viagem. É o momento de consultar a vossa bússola interior, de confiar no terceiro saber fazer, e de inventar um novo percurso.

A vida, essa senhora prática e pouco dada a teorias, estará à vossa espera logo ali, na próxima curva que não estava no mapa. Provavelmente, com um café quente e uma vista deslumbrante.

Até à próxima Conexão Criativa!

(Assinado: Uma caminhante que já prefere os atalhos às autoestradas, e a prática a qualquer manual.)

Lúcia (de bizavó e de bússola sempre à mão)

10
Out25

Tenho uma teoria sobre a VIDA: o importante é a prática.

LucyHare

 

 

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A teoria! Aquele néctar divino. Aquele bálsamo para a alma sedenta de conhecimento!

Lembro-me, como se fosse ontem, das horas a fio a devorar volumes poeirentos, a sublinhar frases de efeito com canetas de mil cores, a sentir o cheiro adocicado do papel envelhecido e a promessa de uma sabedoria que, confesso, me fazia sonhar em levitar acima dos meros mortais. A teoria é como aquele bolo de chocolate na vitrine: lindo, perfeito, com uma cobertura brilhante que nos faz salivar. Mas, e vamos ser honestos... quem é que se alimenta só de olhar para o bolo?

Eu, que já passei dos cinquenta e carrego nas costas mais histórias que rugas (e olhem que não são poucas!), aprendi, à custa de calos e algumas nódoas negras na alma, que a vida, essa senhora de carnes rijas e pouca paciência, tem um humor muito peculiar. Ela adora atirar-nos para o meio da pista de dança, mesmo que só tenhamos lido o manual de “Como Dançar o Tango Perfeito em 10 Lições”. E é aí que a melodia da teoria, por vezes, desafina, e o ritmo da prática nos arrasta, quer queiramos, quer não, para um passo de dança que não estava no script.

Quantas vezes não nos vimos a braços com um problema que, na teoria, parecia tão simples como somar dois mais dois? O miúdo que não quer comer pescada cozida (nem eu!), o prazo que aperta no trabalho, a torneira que pinga com uma persistência irritante... Na teoria, talvez tivéssemos a resposta pronta, a estratégia infalível, a paciência de um santo. Mas, na prática, o cheiro a peixe cozido espalha-se pela casa como um aviso de guerra, o suor frio escorre pela nuca enquanto o relógio avança impiedoso, e o som constante do “ping, ping, ping” da torneira transforma-se numa tortura chinesa que nos faz querer gritar para o universo: “Onde está a teoria que me prometia a paz interior?!”

É na prática que o sabor amargo da frustração se mistura com o doce da superação. É no toque áspero das mãos que trabalham, no som do riso que ecoa depois de um dia exaustivo, no aroma do café que nos acorda para mais uma batalha, que a vida se revela em toda a sua complexidade e beleza. A teoria é o mapa, sim, um guia valioso, mas o mapa não nos aquece no frio, não nos alimenta na fome, não nos dá o abraço apertado quando precisamos. É a caminhada, com os seus tropeções e as suas vistas deslumbrantes, que nos molda e nos ensina a verdadeira geografia da existência.

Lembro-me de uma vez, a tentar montar um móvel que comprei no Ikea. O manual, um prodígio de clareza teórica, mostrava diagramas perfeitos. Mas a madeira não encaixava, os parafusos teimavam em não apertar, e o suor escorria pelos olhos, misturando-se com a poeira da serra. Depois de horas de luta, de sentir a dor nos dedos e o desespero a subir, lá consegui. O móvel ficou um pouco torto, é certo, mas a sensação de vitória, o cheiro a madeira nova e o orgulho de ter feito, superaram qualquer frustração. A teoria dizia “encaixe A em B”. A prática, essa mestra implacável, sussurrava “usa a força, mulher, e se não der, improvisa!”

Então, da próxima vez que se sentirem perdidos entre páginas e ecrãs, a tentar decifrar o grande enigma da existência, talvez valha a pena lembrar: a vida não é um problema de matemática para ser resolvido apenas com fórmulas. É uma receita de família, que se aprende na cozinha, com as mãos na massa, com o cheiro a especiarias e o calor do forno. É na prática, no fazer, no sentir, no errar e no recomeçar, que a teoria ganha corpo, alma e, acima de tudo, sabor. E, no final, é isso que nos faz sentir vivos. O resto, meus amigos, é apenas uma parte da conversa.

Até à próxima Conexão Criativa!

(Assinado: Uma eterna aprendiz da vida, com os pés bem assentes na prática.)

Lúcia (de bizavó e não de pastorinha)

07
Out25

O Impulso Imperioso: Um Manifesto pelo Entusiasmo

LucyHare

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O entusiasmo é a forma de energia mais subversiva que possuímos. Num mundo adulto e cinzento, que premeia a discrição, o cálculo e a pose de desinteresse, ser entusiasta é um ato de rebeldia quase erótica. É o desejo feito verbo, o ímpeto que nos salva da asfixia da normalidade.

Repara, a sociedade treina-nos para a contenção. Aprendemos a domar a voz, a disfarçar a excitação, a receber uma boa notícia com um comedido “que excelente”, como se um sorriso demasiado largo fosse um faux pas social. Esta é a postura do “cool”, daquele que nada o surpreende e tudo antecipa. É, no fundo, uma pose profundamente aborrecida e, pior que isso, anti-vida.

O entusiasta, pelo contrário, é um transgressor. Ele é aquele que, perante uma chávena de café excecional, não se limita a bebê-la. Ele proclama a sua excelência, fecha os olhos no primeiro gole e sente o prazer de forma tão visceral que quase se torna inconveniente. É esta capacidade de se deixar afetar, de se render ao espanto, que é verdadeiramente radical. É um desejo pelo mundo – desejo de o saborear, de o conhecer, de o devorar nas suas múltiplas facetas.

Há, é claro, quem confunda entusiasmo com ingenuidade. Nada mais falso. O verdadeiro entusiasta não é um ingénuo; é um alquimista. Ele conhece perfeitamente as desilusões, os projetos que falham, os cafés queimados. Mas escolhe, de forma deliberada e inteligente, focar-se na possibilidade vertiginosa do “e se…?”. É uma estratégia de sobrevivência emocional. Enquanto o cínico se encolhe para não ser atingido, o entusiasta avança em campo aberto, sabendo que pode levar um balde de água fria, mas que a hipótese de tocar no céu vale qualquer risco.

E é aqui que reside o seu poder de sedução. O entusiasmo é magneticamente contagioso. É impossível ficarmos indiferentes perante alguém que fala de uma paixão com os olhos a brilhar. Seja de um hobby, de uma ideia, de um lugar ou de uma pessoa, essa energia pura e não filtrada é o afrodisíaco mais potente que existe. Não há marketing pessoal, nem roupa de marca, que se compare ao atrativo brutal de alguém que está verdadeiramente vivo. O entusiasmo é a linguagem universal do desejo de viver, e todos somos, secretamente, seus tradutores ávidos.

No trabalho, esta força é a diferença entre um mero executor e um criador. O entusiasta não pergunta “o que é que tenho de fazer?”; pergunta “como é que podemos fazer isto brilhante?”. Ele infeta os outros com a sua convicção, transforma tarefas em missões e, invariavelmente, acaba por descobrir caminhos que o meramente “profissional” nunca vislumbrou.

Portanto, façamos um pacto. Vamos desaprender a contenção. Vamos permitir-nos o ridículo sublime de nos entusiasmarmos abertamente. Vamos falar do livro que nos mexeu com as mãos, de viajar para um sítio que não conhecemos só pelo prazer do desconhecido, daquele plano que pode falhar, mas que vale a pena tentar.

Porque no fim, a vida não é um relatório de contabilidade emocional onde devemos fechar o saldo a zero. É uma curta, intensa e gloriosamente imprevisível viagem. E a única bagagem de que realmente precisamos é a coragem de a desejar, em toda a sua plenitude.

Sejamos, então, insuportavelmente entusiastas. O mundo, agradecido, há de retribuir o favor.

05
Out25

Ser Mãe: A Metamorfose de um Amor em 23 Anos

LucyHare

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Hoje, o meu filho faz 23 anos. Vinte e três. E eu pergunto-me, onde foram parar os anos? Parece que foi ontem, e ao mesmo tempo, parece que foi noutra vida que o segurei nos braços, um novelo de promessas, tão meu, tão parte de mim. Hoje, olho para o homem que ele é, e o meu coração hesita entre o orgulho que me sufoca e uma nostalgia que me corta a respiração. O que é isto de ser mãe? Ninguém nos prepara para esta montanha-russa, para este amor que nos rasga e nos refaz a cada instante.

Ser mãe… não é um papel. É uma identidade que se entranha na pele, no sangue, na alma. Começa com um amor que não se explica, uma ligação que a ciência tenta decifrar, mas que só um coração de mãe conhece. É amar um ser antes de o ver, de o sentir. É um diálogo silencioso, uma promessa sussurrada ao vento. E depois, eles chegam. E o nosso mundo, tal como o conhecíamos, deixa de existir.

Lembro-me dos primeiros tempos. Daquela dependência absoluta, daquela simbiose quase assustadora. Eu era o seu refúgio, o seu alimento, o seu tudo. E ele, a minha razão de ser. As noites em branco, o cansaço que se tornava irrelevante perante um sorriso desdentado. É uma fase de entrega total, de anulação de nós mesmas, e, estranhamente, é aí que nos encontramos pela primeira vez como mães.

Mas os filhos crescem. E essa é a verdade mais bonita e mais dolorosa da maternidade. A adolescência chega como um terramoto, abalando as nossas certezas. As portas fecham-se, os segredos nascem, e a nossa voz, antes um porto seguro, torna-se ruído. É aqui que aprendemos a amar em silêncio. A morder os lábios para não dar o conselho que não foi pedido. A engolir o medo e a transformá-lo em confiança. O nosso papel muda. Deixamos de ser o centro do seu universo para nos tornarmos um farol, uma luz que eles sabem que está lá, mesmo quando escolhem navegar por outras águas.

E agora, a idade adulta. Vinte e três anos. O meu filho é um homem. Tem a sua própria vida, as suas batalhas, os seus amores e desamores. E eu? Onde fico eu? Continuo aqui. A mãe. Mas uma mãe em metamorfose. Uma mãe que aprendeu a aplaudir de longe, a consolar através de um ecrã, a sentir o seu coração apertado com as suas dores, mesmo que ele não as partilhe. Ser mãe de um filho adulto é uma arte. A arte de dar espaço sem nunca abandonar. De ser presença sem ser invasão. É saber que o nosso colo, embora já não seja o primeiro recurso, será sempre o porto de abrigo incondicional.

Nesta jornada, aprendi que a maternidade é feita de imperfeições. De culpas que nos assombram, de dúvidas que nos paralisam. De momentos em que gritamos quando devíamos ter abraçado, e de silêncios que feriram mais do que palavras. Não somos perfeitas. E é nessa imperfeição que reside a nossa humanidade, a nossa verdade. É ela que nos permite perdoar e pedir perdão. É ela que nos conecta aos nossos filhos de uma forma real, visceral.

Hoje, ao celebrar o aniversário do meu filho, não celebro apenas o seu nascimento. Celebro a minha própria transformação. Celebro a mulher que me tornei por causa dele. A força que não sabia que tinha, a resiliência que descobri nas noites de febre, o amor que se expandiu para além de todas as fronteiras que eu conhecia. Ser mãe é a viagem mais dura, mais exigente, e, sem qualquer dúvida, a mais extraordinária de todas.

Parabéns, meu filho. E obrigada. Obrigada por estes 23 anos de aprendizagem, de amor, de vida. Obrigada por me teres escolhido para ser a tua mãe.

02
Out25

Os Parafusos Invisíveis da Nossa Existência

LucyHare

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Sabes, há uma certa poesia na forma como as lições mais profundas da vida nos chegam através das metáforas mais simples. Esta história, quiçá uma lenda pedagógica, ficou gravada na minha alma: uma professora desenha com giz uma cadeira no quadro da sala de aula e pergunta aos alunos: "Qual é a parte mais importante desta cadeira?"

As respostas foram as que todos imaginaríamos — as pernas, o assento, o encosto. Respostas lógicas, visíveis, tangíveis. Mas a professora, com um sorriso que devia conter séculos de sabedoria, abanou a cabeça. A parte mais importante, revelou, eram os parafusos. Aquelas pequenas peças que ninguém vê, mas que são responsáveis por manter a estrutura inteira coesa. Sem eles, a cadeira desaba.

Esta imagem persegue-me nos meus dias mais atarefados, nos momentos de maior pressão, quando me foco obsessivamente no que é aparente. Quantas vezes, na ânsia de construir uma vida impressionante — com as suas pernas sólidas (o sucesso profissional), o seu assento confortável (o estatuto social), o seu encosto reconfortante (as conquistas materiais) —, nos esquecemos dos parafusos?

Os nossos parafusos são tudo aquilo que não se exibe, que não se publica, que não se mede por métricas de produtividade. São os silêncios compreensivos de quem nos ama, sem exigir nada em troca. É a saúde que, só quando falta, revela o seu valor absoluto. São os amigos que aparecem não nos jantares de gala, mas nas horas de desespero mudo. São as pequenas escolhas do dia-a-dia — a paciência que decidimos ter, o perdão que oferecemos, a integridade que mantemos quando ninguém está a ver.

Vivemos numa cultura obcecada pelo visível. Cultuamos a imagem, a superfície, o resultado final. Polimos as pernas da cadeira até ficarem brilhantes, mas ignoramos os parafusos que enferrujam em silêncio. E depois perguntamo-nos por que razão, de repente, a estrutura da nossa vida começa a fazer um ruído estranho, a abanar, a ceder..

A verdade é que a solidez não está no que se exibe, mas no que se mantém escondido. A resistência não está no espetáculo, mas na fundação. Os alicerces mais profundos são sempre invisíveis. E é precisamente essa a sua natureza e a sua importância — trabalham nas sombras para que possamos viver na luz.

Talvez devêssemos passar mais tempo a cuidar destes parafusos invisíveis. Afrouxar o ritmo para ouvir um amigo. Valorizar uma noite de descanso como um acto de sabedoria. Agradecer a presença silenciosa da família que nos sustenta. Celebrar as pequenas rotinas que tecem a tela da nossa sanidade mental.

No fim, a grande lição não é sobre cadeiras. É sobre a arquitetura íntima da nossa existência. É sobre perceber que, por mais sólida que uma vida pareça do exterior, a sua verdadeira força reside sempre naquilo que não se consegue fotografar, nem partilhar, nem quantificar.

A cadeira está de pé. E tu estás de pé. Antes de correr para o próximo objetivo, para a próxima conquista visível, pára. Toca na madeira, sente a sua textura. E lembra-te, com uma gratidão profunda e silenciosa, dos parafusos invisíveis que te permitem, simplesmente, estar aqui.

01
Out25

Querida Avó Glória

LucyHare

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Tenho tantas saudades tuas que, por vezes, acho que o coração não é um órgão, mas um lugar. Um lugar que ficou vazio, um quarto fechado dentro de mim onde só tu entravas.

Lembro-me das nossas conversas, da tua predilecção pelo Benfica e pelo vermelho. Da maneira como arrumavas as coisas na tua casinha — cada objeto no seu sítio, como se fosse uma forma de pôr ordem no mundo. Era a tua ordem. A ordem de uma mulher que criou sete filhos à força de pulso e de vontade, numa época em que o mundo dava pouco e pedia tudo.

Aprendi contigo o significado silencioso das palavras. "Trabalho" não era uma carreira, era o que se fazia para que os teus não tivessem fome. "Honestidade" não era um conceito, era olhares nos olhos sem baixar a vista. "Dignidade" era seres dona do teu nariz, mesmo quando a vida te empurrava para um canto, mesmo na solidão dos teus últimos anos, a organizar uma existência inteira numa pensão parca.

Nunca te ouvi queixares-te. A tua força não vinha em discursos, vinha no modo como pegavas numa chávena, como olhavas pela janela, como resistias. Ensina-me isso, avó. Ensina-me a resistir.

O mundo mudou tanto, avó Glória. É um sítio barulhento e cheio de atalhos. E há dias em que me sinto tão cansada, tão tentada a seguir o rebanho, a trocar um pedaço da minha consciência por um pouco de conforto. É então que me volto para essa saudade que tenho de ti. E encontro-te. Encontro o teu olhar, a tua postura. E sinto que me puxas a orelha, sem dizeres uma palavra, e me mostras o caminho mais longo, mais difícil, mas o único que vale a pena.

A tua herança não está num baú. Está no meu sangue. Está na minha teimosia. Está na forma como me recuso a ser menos do que aquilo que tu me ensinaste a ser, simplesmente por existires.

Obrigada por cada ruga no teu rosto, que era o mapa de uma batalha vencida. Obrigada por cada silêncio que era, na verdade, uma lição.

Passaram 15 anos, mas as saudades ainda doem, avó. Sinto-te nas lágrimas que são a forma de estares ainda próxima de mim. O teu lugar dentro de mim está guardado. Para sempre.

Com todo o amor da tua neta, que se esforça todos os dias para ser digna da mulher que tu foste.❤️

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