A Gaiola Dourada e a Liberdade Acidental

Liberdade! Que palavra tão pomposa, tão cheia de promessas de horizontes infinitos e voos sem destino. Mas, como bem aprendi na mais tenra idade, a liberdade é, muitas vezes, um periquito que se liberta para acabar esmagado por um acidente. E, meus amigos, esse acidente somos Nós, na nossa gloriosa e desastrada humanidade.
Lembro-me da minha fase de "deusa dos pássaros". Com a solenidade de quem entrega os Dez Mandamentos, abria a portinha da gaiola, concedendo às minhas aves um universo expandido: o meu quarto. Que generosidade! Que visão! Eles, um casal de periquitos, coitados, viam um céu com cortinas e um sol de candeeiro, enquanto eu, na minha torre de marfim adolescente, debatia-me com a quadratura do círculo dos problemas de matemática..
O zumbido das suas asas era a sinfonia da minha ignorância feliz. Estudava sentada na minha cama, com os livros espalhados, e eles esvoaçavam por ali, na sua nova e efémera liberdade.
Até que a sinfonia se calou. Um silêncio ensurdecedor, daqueles que nos fazem questionar o sentido da vida e a localização do pássaro. A dada altura, dei por mim a não ver o periquito macho. A busca foi épica, digna de um Indiana Jones com um aspirador. Levantei-me e procurei-o em todos os lugares do quarto. Podia estar debaixo da cama, ou caído entre um móvel e a parede, mas nada. Voltei a sentar-me na cama, abismada com o desaparecimento, com a porta do quarto fechada, e a questionar-me o que teria realmente acontecido ao bicho. Teria-se evaporado assim do nada? A periquita, empoleirada no candeeiro, observava-me com um olho que parecia dizer: "Ó deusa distraída, onde meteste a minha alma gémea, quem me vai dar beijinhos?".
A verdade, como sempre, não veio com trombetas celestiais, mas com um squish discreto. Voltei a levantar-me e, ao organizar as coisas em cima da cama, percebi que o pobre periquito estava lá, espalmado, entre os papéis onde eu me tinha sentado. Papéis!😵 Esses documentos da minha tentativa falhada de organizar o caos da existência.
A liberdade que eu tão nobremente concedera tinha um preço, e esse preço era o meu próprio descuido, a minha simples ação de me sentar, a minha simples e terrivelmente humana presença. O periquito não morreu por maldade, mas por geografia. Escolheu o sítio errado no mapa do meu reino, e eu, sem querer, tornei-me o seu destino. O acaso, esse Deus trapaceiro, às vezes age sem olhar.
E não é que a vida adulta é uma repetição gloriosa desta fábula emplumada? As gaiolas mudam, mas a essência permanece. Trocam-se as barras de arame pelas invisíveis paredes do emprego que nos dá sustento mas nos rouba a alma, dá renda que nos dá tecto mas nos prende a um salário, da relação que nos dá companhia mas nos nega o voo. Abrimos a portinha destas novas gaiolas, convencidos de que estamos a abraçar a liberdade, quando, na verdade, estamos apenas a trocar uma prisão visível por outra mais subtil e, por vezes, mais asfixiante.
O quarto, que para os pássaros era o universo, e para a miúda de 13 anos, o reino do controlo, transforma-se na vida adulta na nossa carreira, na nossa cidade, no nosso círculo social. Acreditamos que é tudo, esquecendo que estamos confinados às paredes das nossas próprias escolhas e circunstâncias. O "voo" adulto, muitas vezes, não passa de um bater de asas frenético de um canto do guarda-roupa para o outro, sem nunca realmente sair do quarto.
E o peso acidental da responsabilidade? Pois, esse é o grande vilão silencioso. Não temos intenção de esmagar os nossos sonhos, a nossa saúde mental, ou as pessoas que amamos. Mas acontece. Acontece quando o peso das contas, das expectativas, do cansaço acumulado, se senta em cima daquilo que é mais frágil e precioso em nós. O periquito, nesse cenário, é a nossa criatividade, a nossa espontaneidade, a nossa leveza. E um dia, damos por nós e ela está lá, "espalmada" debaixo do monte de "papéis" urgentes mas insignificantes que fomos acumulando. Morreu por asfixia acidental, por excesso de burocracia existencial.
A busca frenética pelo que se perdeu é a nossa eterna corrida atrás da felicidade. Procuramos em viagens exóticas, em compras impulsivas, em novos amores, ou, para os mais desesperados, no fundo de uma garrafa. Procuramos em cima do guarda-roupa das conquistas materiais e na fresta entre os móveis das memórias. E a tragédia é que, tal como o periquito, o que procuramos esteve muitas vezes sempre debaixo de nós — soterrado sob o monte de obrigações que nos impedem de ver o que realmente importa.
A lição final, tão profunda quanto ridícula, ecoa através dos anos: a liberdade é um voo frágil, sempre à mercê de um acidente que, a qualquer momento, pode descer do seu trono e, sem qualquer intenção, definir o fim da viagem. A verdadeira liberdade não é apenas abrir a gaiola. É ter a consciência do espaço onde ela vai acontecer. É perceber que cada escolha, cada gesto, cada vez que nos sentamos sem olhar, pode estar a definir o destino de algo ou de alguém — inclusive o nosso.
A vida adulta, no fundo, é perceber que somos simultaneamente a miúda que quer libertar os periquito, os canários e os mandarins, e o acidente que, sem querer, os pode esmagar. A sabedoria está em dançar entre estes dois papéis sem perder a ternura. Mas, preferencialmente, perdendo o mínimo possível de pássaros. E, já agora, talvez olhar para onde nos sentamos. Nunca se sabe o que está por baixo. 🙄

