Bâton entre Livros

A velha surpresa de descobrir que uma mulher bem-vestida também sabe juntar letras com alguma graça!
É curioso como, quando partilho um pensamento mais denso ou um poema que me saiu das entranhas, há sempre alguém a esfregar os olhos, como se esperasse encontrar um fantasma por trás do meu perfil. "És mesmo tu que escreves?" — perguntam, num tom que oscila entre a admiração acidental e a desconfiança disfarçada de elogio. Como se as palavras, para serem minhas, tivessem de sair de uma pessoa com óculos grossos e um blusão sem forma, e não de alguém que também sabe escolher um batom que combine com o estado da alma nesse dia.
Desde pequena que as letras foram os meus brinquedos preferidos — montava frases como quem monta legos, desenhava mundos e doodles no contorno das folhas dos cadernos da escola. E agora, quando decido partilhar esses mundos, há sempre quem ache que devia ter um ar mais... académico. Leia-se: menos cor, menos estilo, menos vida. Como se a seriedade intelectual exigisse um uniforme de cinzento e um rosto sem expressão. Mas eu recuso-me a entrar nessa fantochada. O meu intelecto não mora num sótão sombrio; vive bem iluminado, entre estantes organizadas e um bom creme de rosto.
E, no fundo, é essa a verdade que os espantados não engolem: que se pode ter uma mente afiada e um verniz impecável. Que se pode citar Rimbaud no X e estar vestida com toda a elegância.
Que se possa ter prateleiras cheias de livros em casa, mas também de brincos e sapatos. Que uma frase bem construída e um outfit bem pensado nasçam do mesmo lugar: da atenção ao que nos define, por dentro e por fora.
Desconhecen que a complexidade de uma pessoa não cabe em gavetinhas sociais.
A sociedade e certas organizações ainda teimam em achar que a inteligência é um clube exclusivo para quem despreza o espelho. Como se uma mulher que se arruma fosse, por definição, uma vaidosa oca, condenada a falar apenas de esmaltes, restaurantes e modas passageiras. E, no entanto, aqui estou eu: a mulher que pode debater Camões ao pequeno-almoço e, ao almoço, discutir se os brincos de argola ficam melhor com o cabelo solto ou apanhado. Oh😱 escândalo!
No fim, sorrio e respondo, com a doçura afiada que me caracteriza e de quem já percebeu o jogo - Sim, escrevo assim como me visto: com atenção aos detalhes.
E já agora, doutoro-me nisso.








