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Descomplica & Brilha. Doses de Alegria para o Teu Dia

Descomplica & Brilha – o teu blog de doses alegres para dias com mais cor e menos preocupação. Aqui, a inspiração vem com um sorriso e a vida ganha novos brilhos! ✨

30
Jul25

Bâton entre Livros

LucyHare

 

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A velha surpresa de descobrir que uma mulher bem-vestida também sabe juntar letras com alguma graça!

É curioso como, quando partilho um pensamento mais denso ou um poema que me saiu das entranhas, há sempre alguém a esfregar os olhos, como se esperasse encontrar um fantasma por trás do meu perfil. "És mesmo tu que escreves?" — perguntam, num tom que oscila entre a admiração acidental e a desconfiança disfarçada de elogio. Como se as palavras, para serem minhas, tivessem de sair de uma pessoa com óculos grossos e um blusão sem forma, e não de alguém que também sabe escolher um batom que combine com o estado da alma nesse dia.

Desde pequena que as letras foram os meus brinquedos preferidos — montava frases como quem monta legos, desenhava mundos e doodles no contorno das folhas dos cadernos da escola. E agora, quando decido partilhar esses mundos, há sempre quem ache que devia ter um ar mais... académico. Leia-se: menos cor, menos estilo, menos vida. Como se a seriedade intelectual exigisse um uniforme de cinzento e um rosto sem expressão. Mas eu recuso-me a entrar nessa fantochada. O meu intelecto não mora num sótão sombrio; vive bem iluminado, entre estantes organizadas e um bom creme de rosto.

E, no fundo, é essa a verdade que os espantados não engolem: que se pode ter uma mente afiada e um verniz impecável. Que se pode citar Rimbaud no X e estar vestida com toda a elegância.
Que se possa ter prateleiras cheias de livros em casa, mas também de brincos e sapatos. Que uma frase bem construída e um outfit bem pensado nasçam do mesmo lugar: da atenção ao que nos define, por dentro e por fora.
Desconhecen que a complexidade de uma pessoa não cabe em gavetinhas sociais.

A sociedade e certas organizações ainda teimam em achar que a inteligência é um clube exclusivo para quem despreza o espelho. Como se uma mulher que se arruma fosse, por definição, uma vaidosa oca, condenada a falar apenas de esmaltes, restaurantes e modas passageiras. E, no entanto, aqui estou eu: a mulher que pode debater Camões ao pequeno-almoço e, ao almoço, discutir se os brincos de argola ficam melhor com o cabelo solto ou apanhado. Oh😱 escândalo!

No fim, sorrio e respondo, com a doçura afiada que me caracteriza e de quem já percebeu o jogo - Sim, escrevo assim como me visto: com atenção aos detalhes.

E já agora, doutoro-me nisso.

22
Jul25

Liderar com Alma.

LucyHare

Sim, quando as pessoas estão antes dos números

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Há quem acredite que liderar se resume a dominar planilhas, cumprir metas ou exibir um currículo repleto de certificações. Mas quem já esteve no terreno sabe: uma equipa não se move por ordens, move-se por pessoas. E é aí, nesse espaço frágil e humano entre o chefe e o líder, que tudo se decide.  

Imaginem um barco. O conhecimento técnico é o casco, sem ele afunda-se. Mas sem o vento certo — a confiança, o respeito, a capacidade de ouvir —, por mais sólido que o barco seja, ele não navega. Liderar é isso mesmo: é saber que as pessoas não remam por obrigação, mas por vontade. E essa vontade nasce de algo tão simples (e tão complexo) como sentir que importam.  

Já vi chefes a gritar metas ou objectivos como se números motivassem por si só. E vi líderes que, em vez de discursos, perguntavam: "Como estás?" — e esperavam verdadeiramente pela resposta. A diferença não está no cargo, está no olhar. Um bom líder percebe que o cansaço de sexta-feira não se resolve com café, mas com flexibilidade; que um erro não se corrige com humilhação ou gritos, mas com orientação; e que o crescimento da equipa não é um risco para a autoridade, mas a sua maior vitória.  

Há dias, uma amiga contou-me como, na empresa onde ela trabalha, o director dela cancelou uma reunião para ajudar um colega dela com um problema pessoal. "Nunca me esqueci disso" disse ela. E é precisamente isso que fica: não os gráficos de produtividade daquele trimestre, mas a memória de quem esteve lá quando foi preciso.  

Claro que competências técnicas são importantes. Mas sozinhas, são como um instrumento desafinado: até se pode tocar, mas ninguém se emociona. Liderar, no fundo, é a arte de acrescentar humanidade à eficiência. É entender que por trás de cada email, há uma pessoa; por trás de cada prazo, há uma vida.  

E quando isso acontece, algo mágico se constrói: equipas que não trabalham por obrigação, mas por lealdade - o amor à camisola. Porque no final do dia, ninguém se lembra do chefe que sabe tudo. Lembramos-nos daquele que nos faz acreditar que somos capazes.

22
Jul25

Olha-me este croissant!!

LucyHare

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Estava eu na esplanada do café "Pachoilas" a beber o sumo de laranja – natural, fresquinho, acabado de espremer, como deve ser – e a dar a primeira dentada no croissant misto quando o Fudilios, amigo de longa data, demasiada data, passa por mim e solta: "Isso está cheio de manteiga, vais ficar com o colesterol todo fodido."

Ora bem. Nem bom dia, nem sorriso, nada. O gajo vê-me a aproveitar a vida e decide que a sua missão sagrada é lembrar-me que tudo tem um lado negro. Até um croissant quentinho, estaladiço por fora e macio por dentro, que por acaso está divinal.  

"Amigo, olha que isto está bom, pá." Digo eu, optimista, a ver se o puxo para o lado da luz.  

Ele respira fundo, como se eu lhe tivesse pedido para carregar o mundo às costas, e responde: "Bom? Isso é farinha refinada, óleo de palma e quem é que te garante que aquele fiambre não tem nitratos? Olha que o meu primo teve uma intoxicação alimentar num sítio que até tinha boa fama." 

E pronto. Está lançado. O meu croissant, que até ao momento era uma pequena maravilha gastronómica, transformou-se num crime contra a saúde pública. O sumo de laranja? "Ácido, estraga o esmalte dos dentes." A esplanada soalheira? "Vais apanhar um cancro de pele." A brisa agradável? "Isto depois ao fim do dia dá uma constipação de não se levantar."  

O outro amigo que estava comigo, que até agora estava calado, atira-me um olhar e pergunta baixinho: "Este gajo é assim sempre ou hoje acordou especialmente inspirado?"

"Epá, ele tem dias bons e dias maus." Respondo, enquanto o Fudilios se senta à nossa mesa sem ser convidado. "Hoje até está bem-disposto. Na segunda-feira estava a dizer que o pão do café tinha bolor e nem sequer era verdade – era sementes."  

O Fudilios ignora-nos, pega no guardanapo, examina-o como se fosse uma prova forense e comenta: "Isto está tão fino que nem deve absorver nada. E ainda por cima deve ter químicos."

A empregada brasileira passa por nós e pergunta se queremos mais alguma coisa. Eu, que já aprendi a lição, limito-me a abanar a cabeça. Mas o Fudilios não resiste: "O sumo de laranja é mesmo natural ou é daqueles de caixinha?" 

A empregada, paciente como uma santa brasileira, responde: "É espremido na hora, senhor". 

"Ah, pois… mas as laranjas devem ser cheias de pesticidas."

O meu amigo não aguenta e solta uma risada. Fudilios, tu até o Paraíso conseguias transformar num problema. "Ah, esta maçã é um perigo, olha que a serpente anda aí…'" 

O Fudilios suspira, como se estivesse cercado por ingénuos, e responde: "Pois, e depois vês no que deu."

E assim seguimos, entre tragédias anunciadas e catástrofes imaginárias, enquanto eu aproveitava o meu croissant – sim, Fudilios, eu sei que é pecado mortal – e o sumo de laranja que, afinal, até estava óptimo.  

Porque no fim do dia, há duas maneiras de viver: a aproveitar o que está bom, ou a procurar pelo menos três coisas erradas em tudo. E o Fudilios? Bem, o Fudilios já nasceu "fodido" com a vida, mas munido com o diploma em Arqueologia do Pior.  

Afinal, quem não tem um amigo assim?

Mas vá, pelo menos entretém.

22
Jul25

Vou Ali e já Não Venho

LucyHare

Será a Arte suprema do desaparecimento à portuguesa?

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Eis a sentença mais honestamente desonesta da língua portuguesa. Uma declaração de guerra ao compromisso, um bilhete só de ida colado com cuspo no frigorífico da vida.  

Quem diz "vou ali e já não venho" não está a mentir. Está a fazer poesia experimental com a verdade. 

É como dizer "vou saltar deste avião" enquanto se veste um paraquedas invisível. O paraquedas, claro, é a nossa capacidade coletiva de fingir que acreditamos.  

Outra coisa..

Esta frase não se diz - Canta-se!.🧑‍🎤

É um fado brejeiro, uma cantiga de embalar para adultos que ainda acreditam que o "ali" fica ao lado do País da Fantasia.  

Esse "ali" pode ser

O pub onde o sujeito se transforma em lenda urbana; A casa de um primo que ninguém conhece mas que supostamente tem uma piscina; O buraco negro onde desaparecem as colheres de pau e as intenções de pagar o jantar. 

Já o "já" é aquele toque de genialidade. Um "já" que abrange desde "daqui a cinco minutos" até "no próximo ciclo de reencarnações". 

O "não venho" é a cereja no topo do bolo da audácia. Não é um aviso, é uma crónica de uma morte anunciada em que o cadáver sai a assobiar do caixão, compra um cachorro-quente a caminho do cemitério porque não quer ser enterrado com fome.

Há quem diga que esta frase nasceu num qualquer terreiro alentejano, quando um homem disse à mulher que ia "ali" à taberna e voltava a tempo do jantar. A mulher espera sentada à mesa até hoje, a sopa de cação passou a sopa de pedra, e o tal homem é agora uma estátua na praça da aldeia com a inscrição "Foi ali e já não veio – Herói Local".  

Então vamos lá ver aplicações práticas da frase no Portugal moderno:  

Na política – "Vou ali resolver a educação e já não venho" (tradução: vou ali beber um fino e quando voltar já passou a legislatura)  

No amor – "Vou ali comprar cigarros e já não venho" (versão internacional) vs "Vou ali despejar o lixo e já não venho" (versão tuga premium)  

Nas obras em casa – "Vou ali buscar o material e já não venho" (tradução: quando o neto for velho, talvez a casa de banho esteja azulejada)  

O curioso é que todos conhecemos alguém que disse esta frase e cumpriu. Esses são os verdadeiros génios. Os outros são meros aprendizes de feiticeiro que voltam de cabeça baixa e inventam que oh "afinal o ali estava fechado".  

No fundo, todos nós sabemos a verdade: o "ali" não é um lugar, é um estado de alma. Ou talvez a nossa maneira de brincar às escondidas com o destino. Por que como bons portugueses, escondemo-nos tão bem que às vezes até nós próprios nos perdemos. E talvez o "já não venho" seja o último refúgio dos que ainda acreditam que, lá no fundo do poço, há uma porta secreta para a esquadra da PSP do bairro.  

Esta reflexão já está baralhada. Não vou pensar mais nisto. É que fico mesmo aqui e já nem vou!

19
Jul25

Morpheus: O Deus dos Sonhos Num Mundo Que Não Dorme 

LucyHare

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Imaginem um deus grego a tentar fazer o seu trabalho nos dias de hoje. Morpheus, o divino mestre dos sonhos, filho de Hypnos (o Sono) e Nyx (a Noite), teria uma tarefa hercúlea: convencer os humanos, viciados em ecrãs e cafeína, a fechar os olhos e mergulhar num descanso decente. Nos tempos antigos, ele moldava visões oníricas com a delicadeza de um escultor. Hoje, provavelmente, estaria a bater com a cabeça nas paredes do Olimpo, a perguntar-se porque é que ninguém lhe dá ouvidos.  

A mitologia conta que Morpheus tinha o dom de assumir formas humanas nos sonhos, aparecendo como figuras familiares para transmitir mensagens dos deuses. Era o 'influencer' do mundo onírico, mas em vez de patrocinar produtos, trazia avisos divinos ou premonições. Ovídio, no seu Metamorfoses, descreve como ele se transformou no falecido marido de Alcyone para lhe revelar o seu trágico destino. Um spoiler dramático, mas pelo menos era um sonho memorável—algo que, hoje, muitos nem sequer conseguem recordar ao acordar.  

A Noite Que Desapareceu (e os Sonhos que fugiram com Ela)

Vivemos numa era de luzes artificiais, notificações a piscar e horários de trabalho que se esticam como chiclete. O ciclo natural do dia e da noite foi atropelado por uma cultura que glorifica a produtividade 24/7. Dormir? Isso é para os fracos—ou, pelo menos, é o que muitos pensam, até começarem a parecer zombies ao pequeno-almoço.  

Os gregos antigos sabiam que a noite pertencia a Nyx e o sono a Hypnos, mas nós decidimos que o nosso cérebro funciona melhor a funcionar non-stop,  como um telemóvel em low battery mode.

O resultado? Uma epidemia de insónias, ansiedade e sonhos que mais parecem buffering de internet lenta. Morpheus, se existisse hoje, estaria desempregado—ou pior, a trabalhar em 'part-time',porque ninguém dorme o suficiente para ter sonhos interessantes.  

O Preço de Ignorar o Poder do Sono

A ciência já provou que dormir mal é como mandar o corpo e a mente para uma guerra sem tréguas. Problemas de memória, sistema imunitário em baixo, irritabilidade digna de um deus do Olimpo em dia mau—tudo porque trocamos horas de descanso por mais 'scroll' no telemóvel ou mais uma hora no escritório.  

Se Morpheus aparecesse hoje num sonho, provavelmente seria para nos dizer: "Desliga o Wi-Fi, deita-te cedo, e deixa-me fazer o meu trabalho!". Mas, em vez disso, ignoramos os sinais, enchemos o corpo de cafeína e depois perguntamo-nos porque é que acordamos mais cansados do que quando nos deitámos.  

Um Despertar (Literal) Para a Vida

Talvez seja altura de resgatarmos um pouco da sabedoria antiga. Os gregos não veneravam Morpheus à toa—eles sabiam que os sonhos eram portais para o subconsciente, espaços onde a mente se reorganizava e até recebia mensagens do além (ou, pelo menos, do cérebro a processar o dia).  

Se queremos viver melhor, talvez devêssemos começar por fechar os olhos—e mantê-los fechados—durante mais do que quatro horas seguidas. Quem sabe? Se deixarmos Morpheus fazer o seu trabalho, ele pode presentear-nos com sonhos que valham mais do que uma série da Netflix vista até às 3 da manhã.  

Afinal, até os deuses precisam de colaboração humana. E se há coisa que Morpheus merece, é uma geração que não o deixe a bater com a cabeça na parede, mas que, pelo menos uma noite por semana, lhe dê uma oportunidade de fazer magia. Boa noite—e que os sonhos estejam convosco.

16
Jul25

Manual Imperfeito para quem se Atreve a Estar Errado

LucyHare

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(e a Aprender com Isso)

Há uma certa ironia no modo como lidamos com o conhecimento. Quanto mais aprendemos, mais percebemos o quanto ignoramos — e ainda assim, há em nós uma resistência quase instintiva a admitir que não sabemos. A frase "Seja ensinável: você não sabe de tudo e nem sempre está certo" parece simples, mas carrega um convite profundo: o de abraçar a vulnerabilidade como caminho para crescer.  

Ser ensinável não é sobre fraqueza; é sobre coragem. É sobre trocar a armadura da certeza absoluta pela leveza de quem está sempre a descobrir. Quantas vezes nos agarramos a opiniões como se fossem partes de nós mesmos, temendo que questioná-las fosse uma traição à nossa própria inteligência? E quantas oportunidades se perderam porque, naquele momento, preferimos ter razão a ter clareza?  

A verdade é que a vida raramente se encaixa em respostas definitivas. As pessoas mudam, as circunstâncias transformam-se, e o que hoje parece óbvio amanhã pode revelar-se um equívoco. Quem se permite ser ensinoável não está a desvalorizar o que sabe; está a reconhecer que o saber é um rio, não um lago. Está a fazer espaço para que o novo — mesmo quando desconfortável — possa entrar.  

Há uma beleza subtil em dizer "não sei" ou "compreendi mal". São frases que desarmam conflitos, que abrem portas a diálogos mais ricos, que transformam o erro em degrau. E, curiosamente, é assim que se constrói a verdadeira autoridade: não pela imposição, mas pela capacidade de escutar, ajustar e evoluir.  

Talvez o maior desafio seja praticar isto no dia a dia. No trabalho, quando um colega sugere uma abordagem diferente da nossa. Em casa, quando um filho ou um parceiro nos mostra um ângulo que não tínhamos considerado. Até connosco mesmos, quando confrontados com ideias que abalam as nossas convicções. Ser ensinável exige um exercício constante de desapego — não às nossas verdades, mas à ilusão de que elas são imutáveis.  

No fim, o que fica não é a lista do que acertámos, mas a memória de quanto nos deixámos transformar pelo que ainda não sabíamos. E é aí, nesse espaço entre a humildade e a curiosidade, que o crescimento verdadeiro acontece.  

Por isso, da próxima vez que sentires o impulso de defender uma posição como se dela dependesse a tua identidade, respira. Lembra-te: estar aberto a aprender não diminui ninguém. Pelo contrário, é o que nos mantém vivos, dentro e fora.

15
Jul25

Vive. Inspira-te. Brilha.✨

LucyHare

 

Viver, inspirar-se, brilhar — três gestos simples que transformam a existência em algo maior. 

A vida não se mede apenas em dias, mas na intensidade com que os sentimos. Inspirar-te é deixares que o mundo te toque: um raio de sol, uma palavra certa, um momento de silêncio. São essas pequenas faíscas que acendem a chama dentro de ti. Brilhar, então, é o reflexo natural de quem vive com os olhos e o coração abertos. Não precisas de ser perfeito, apenas verdadeiro. Porque a beleza está no modo como resistes, sorris e segues, mesmo quando o caminho escurece.  

Vive. Inspira-te. Brilha.✨

Repete, como um mantra: a tua luz também ilumina outros.

15
Jul25

Vinte e três anos. Bodas de papel.

LucyHare

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Parece pouco, quando dito assim, num sopro. Papel. Coisa frágil, que se dobra, que se molha, que se perde num descuido. Mas também coisa que perdura - livros antigos, cartas amarrotadas, documentos que sobrevivem a séculos. Talvez seja isso o amor que dura: algo que teima em não desaparecer, mesmo quando a vida insiste em dobrá-lo, amassá-lo, deixá-lo ao relento.

Vinte e três anos são feitos de dias comuns. De café entornado, de contas por pagar, de silêncios que já não doem. São feitos de corpos que mudam, de rotinas que se enraízam, de desejos que se transformam. A paixão dos primeiros anos é fogo de artifício - brilha, estronda, desaparece. O que ficou é outra coisa: brasa que se mantém acesa, nem sempre visível, mas sempre presente.

O mistério não se foi embora. Apenas se escondeu nos detalhes: na forma como ele ainda te olha quando pensa que não reparas, no modo como os vossos silêncios já não são vazios, mas cheios de tudo o que não precisa ser dito. A sedução mudou de forma. Já não está nos vestidos novos, mas na intimidade que só vocês conhecem.

E esse coração grande, que questiona se cabem mais amores? Cabem, claro que cabem. Mas cada um traz consigo o seu peso, a sua sombra, a sua conta por pagar. Não há amor inocente depois de certa idade. Cada um exige espaço, tempo, pedaços de alma.

O papel pode rasgar-se, é verdade. Mas também pode ser dobrado de novo, transformado noutra coisa. Um barco. Um avião. Uma flor frágil que, contra tudo, teima em desabrochar.

No fim, talvez não haja respostas. Apenas esta certeza: vinte e três anos não se apagam com uma borracha. Estão escritos a tinta permanente na vossa pele, no vosso jeito de estar no mundo. O que fizerem com esse papel - se o guardam numa gaveta, se o deixam voar - isso já é só convosco.

A vida, essa, continua a escrever-se. Uma palavra de cada vez.

13
Jul25

Vertigem do Fundo e o Eco das Nossas Escolhas

LucyHare

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Há um momento em que o chão se desfaz, não por falta de solidez, mas porque o olhar se inclina para além dele. Perguntar 《onde o céu começa?》 é como tentar apanhar o horizonte com as mãos — só se revela a quem aceita que ele nunca está onde se procura, mas sim onde se pára de fugir. A vertigem não é o vazio; é o reconhecimento de que há mais céu no abismo do que no alto. E quem olha fundo desobedece à tirania do óbvio, rasga o véu do 《assim basta》e pergunta 《e se for mais?》. Porque o céu não começa onde os olhos alcançam, mas onde o olhar se rende ao que não pode ser visto.

Viver à superfície é como ler um livro só pelas margens: seguro, limpo, mas sem nunca se deixar atravessar pelas palavras. O que verdadeiramente importa — o que arde, o que cura, o que permanece — está sempre enterrado sob camadas de hábito e distração. Quem não mergulha, não sabe que o medo da profundidade é, muitas vezes, só o reflexo do medo de encontrar algo maior do que a própria pequenez. A única maneira de chegar ao céu é deixar que o abismo, afinal, nos segure.

Mas mergulhar exige coragem, e a coragem é filha da escolha. Há quem viva como se o tempo fosse um rio que tudo arrasta, como se as coisas simplesmente 《acontecessem》, alheias à nossa vontade. Essa passividade é uma mentira cómoda, um silêncio que o vento leva. A eternidade não é um lugar distante onde os nossos atos vão parar por acaso — é o resultado do que ousamos fazer, ou deixar de fazer, aqui e agora. Um homem que planta uma árvore sabendo que nunca vai sentar-se à sua sombra já compreendeu mais da eternidade do que quem espera, de braços cruzados, que o futuro lhe caia do céu.

A verdadeira medida de uma vida não está na resignação, mas na fibra com que enfrentamos o que parece imutável. Desafiar não é um gesto de rebeldia vazia; é a recusa a aceitar que o mundo já está escrito. Cada vez que escolhemos não nos dobrar ao medo, à indiferença ou à tirania do 《sempre foi assim》 criamos um eco que ultrapassa o nosso tempo. A ação, ainda que pequena, é o que fica. Não há gesto insignificante quando é feito com convicção.

A questão não é se as nossas ações vão ecoar, mas 《como》. E isso depende apenas de uma coisa: termos a audácia de não aceitar o mundo como ele nos é entregue, mas moldá-lo, mesmo que seja só um pouco, com as nossas mãos. Viver assim exige a coragem de abraçar a vertigem, de deixar que o abismo nos mostre que o céu está também no fundo. Porque a rendição, o 《deixar andar"》, é que é, verdadeiramente, uma morte em vida.

E no fim, talvez descubramos que o chão nunca se desfez — apenas nos ensinou a voar.

12
Jul25

A Rotina é um Cão Sagrado que Late Versículos em Grego Antigo.  

LucyHare

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Ó bendita rotina! Tu, divindade menor do panteão doméstico, que nos brindas com a tua liturgia de gestos repetidos – desde o procurar a chave do carro que está sempre no mesmo sitio mas desaparece sempre, até ao ritual noturno de verificar três vezes se fechámos aquela janela que até nunca chegamos a abrir. És o meu rosário particular, a minha oração laica, o meu "Pai Nosso" em forma de lista de tarefas que nunca cumpro.  

Eis que, num êxtase de tédio celestial, a rotina se transfigura. Já não és a escada rolante que me conduz suavemente ao nada; transformas-te num purgatório de tic-tacs agonizantes. "La Vie en Rose", murmurou a poeta. Eu, mais pé no chão, digo: "La Vie em Creme". É quando o divino espirro da rebeldia me assola e decido, num arroubo dionisíaco, trocar o meu habitual "arroz de ontem" por... "arroz de anteontem". Que ousadia. Que epifania gastronómica.  

Mas os deuses são irónicos. Vinte minutos depois desta fuga para a frente, já me ajoelho perante o altar da monotonia, suplicando: "Perdoai-me, ó Rotina, pois pequei por vos querer abandonar por um prato de grão de bico cozinhado em fogão alheio!" E tu, magnânima, acolhes-me de volta como a Virgem acolhe o filho pródigo – com um olhar que diz "sabia que voltavas" e um cheirinho a roupa esquecida na máquina há três dias.  

A vida, essa comédia divina, é um eterno bailado entre Eros e Thanatos – se Eros fosse apanhar um avião às 00:00 no aeroporto de Lisboa e Tânatos o fim de férias e regresso ao trabalho. Queremos ser Ícaros, mas a nossa cera derrete ao primeiro raio de sol que nos obriga a sair de casa. Almejamos o Olimpo, mas desistimos no terceiro degrau porque "amanhã ainda tenho um relatório para terminar".  

E assim, ó meus caríssimos condenados ao paraíso do previsível, navegamos entre Scylla (o tédio) e Charybdis (a mudança), sempre com um pé no barco e outro firmemente plantado no sofá. Porque no fim, como dizia o grande filósofo anónimo do café da esquina: "A liberdade é sobrevalorizada – e dá muito mais trabalho".  

Agora, com a vossa licença, vou cumprir o meu destino cósmico: continuar a escrever o meu ensaio da Reconfiguração da Natureza Humana e o Imperativo da Cooperação em Tempos de Crise, antes que me volte o sono. São 20:20. Como sempre. E assim seja.  

✅️ Este artigo foi escrito sob inspiração divina – ou possivelmente devido a uma indigestão de rotina. Que os deuses da rotina nos perdoem as nossas escapadelas literárias.

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